Buscar
  • clara ceribelli

Flores e dores em poema

A vida continua me arrastando pro chão. Para Terra. Para encontrar respiro no buraco. Encontrar alívio no sólido. O corpo continua me arrastando pra plantação. Meu corpo continua me obrigando a voltar pro chão. Meu ventre continua me pedindo pelo colo das plantas. Pra ele, sempre volto. Sinto essa dor que não passa faz tanto tempo. Hora grita, ora silencia, mas está sempre lá. Meu ventre me pedindo atenção. E o ventre, eu sei, é a ponte pro coração. Não sei em mim qual dói mais. Eu sinto arregaçado no corpo as prisões das mulheres. Eu sinto como se um ladrão que arromba a porta da frente pra roubar uma casa, tivesse feito o mesmo comigo. Sinto-me arrombada por dentro e tantas coisas dolorosas e fora do lugar. Eu até dou risada sarcástica... o quão óbvio é, como não percebi antes. Como o corpo retrata tão fielmente as mazelas do Espírito. E meu corpo exige de mim uma gentileza que eu não sei como dar. Eu li esses tempos algo como "depois de traumas como esse, o quão delicadamente uma mulher precisará ser amada pra se recuperar?". Foi um soco. Eu finalmente entendi a minha necessidade. A de ser amada delicadamente. E eu não sei bem como fazer isso porque existe um vício de agressão entre eu e eu mesma. Existe uma crueldade impressionante. Existe, como disse a Clarice, um homem sinistro dentro de mim que tortura, bate e sufoca meus sentimentos. De todos os homens que eu conheci, o pior é o que mora dentro de mim. Eu não entendia o que era sadismo até conhecer ele por dentro. E por toda minha vida ele vem me maltratando e me tornando fria e insensível comigo mesma. De forma que eu não sei como amar delicadamente. Ele não sabe como. E meus sentimentos sensíveis permitem que eu continue apanhando porque é isso que eu conheço do amor. Mas o corpo me obriga. A vida me obriga a voltar para essa Terra que vai me ensinar a me amar devagar. Que vai me limpar, se Deus quiser, desse ódio dentro do meu coração. Bem no dia que eu pedi pra Maria Madalena me iniciar nos Mistérios da Rosa... Eu descubro o tamanho do machucado. Até nas tragédias minha vida sincroniza. E, como sempre, eu volto pras plantas. Elas têm tanto que eu não tenho, tanto pra me ensinar. A Arruda para me exorcizar e arrancar de vez essa sujeira escura. A Camomila pra me dar o colo e a consciência clara. A Calêndula pra cicatrizar meus machucados e trazer alegria pra eu respirar. E, é claro, a Rosa... A Rosa com amor tão intenso que só ela é capaz de transmutar feridas em amor. A Rosa que abre o ventre-coração-divino para me mostrar que do Feminino, eu nada sei. Sou mera aprendiz e aventureira do espírito das plantas, da matriz corporal, da Shakti... transformando em poesia o mistério que habita em mim.





71 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo